NÃO-SER NO LÉXICO LATINO
É principalmente pelo intermediário de John Scot (Scot e Erigène são todos dois: Irlandeses ) que a teologia meta-ontológica se S. Dionísio e seu discípulo S. Máximo o Confessor foi conhecida no Ocidente, já que foi ele que os traduziu, antes de integrar o essencial no que é sem dúvida a mais potente síntese metafísica da Idade Média, o De divisione naturae. (Lembremos que a metafísica do cristianismo platônico tem aí quatro nomes: Dionísio o Areopagita, o fundador e o mais litúrgico; John Scot o formulador e o mais sintético; Mestre Eckhart , o vivificador e o mais radical; Nicolau de Cusa, o filósofo e o mais eclesiástico, que reúne, conclúi e anuncia o universalismo tradicional). Como duvidar da importância que John Scot atribúi à justa concepção do esse e non esse 1 , já que é a ela que consagra a primeira página de seu grande tratado (D.D.N., I, 3) : « tudo o que cái sob os sentidos corporais ou a percepção da inteligência pode razoavelmente se chamarser; mas tudo o que, pela excelência de sua natureza não somente escapa aos sentidos, mas também à todo intlecto e razão, apareceu legitimamente como não-ser. O não se entende diretamente de nada ançao ser Deus só e de tudo o que foi estabelecido por Ele, a saber: as essências e as razões (as possibilidades que Deus tem estabelecidas — condita — ante a criação do mundo e que não conheceram nunca a manifestação) ». Tal é o primeiro sentido do não-ser, o mais transcendente. O segundo ( existe cinco ao todo) aplica à toda realidade superior à uma realidade dada, já que, para esta, aquela é com efeito comonão sendo: esses sentido é como uma consequência cósmica e uma reverberação hierárquica do sentido primeiro. O terceiro sentido aplica a distinção não esse-esse à distinção, no espaço e no tempo, do virtual e do atualizado. O quarto (filosófico) atribui o ser verdadeiro às coisas espirituais, o não-ser às corporais ( se reconheceu a distinção platônica do ser e do tonar-se). O quinto, por fim, é de natureza propriamente religiosa; o homem decaído é não-ser; o homem restaurado pelo Cristo é ser; O único sentido que afasta John Scot de seu vocabulário é aquele onde não-ser designa a privação absoluta, o nada (Dom Cappuyns, John Scot Erigène, p. 329-330). É porque, de uma maneira que lembra as doutrinas da Kabala concernente ao En-Soph e o Aïen (ou Nada supremo), John Scot pode declarar que Deus é o « Nada por excelência » (Nihil per excellentiam, D.D.N. III, 681 A). É porque o ex nihilo da criação significa em realidade « ex Deo » (III, 68 D ; IV, 771 B ; etc.).
Para dizer a verdade, John Scot, e por meio dele, Dionísio, não era o único canal onde na Idade Média podia-se beber na fonte platônica. Sem contar o último dos Padres gregos, S.João de Damasceno que, no século VIII, resume toda a patrística e que não hesita em dizer que Deus « está para além de tudo o que é, e para além do ser mesmo » (De fide orthodoxa, I, 4), é preciso mencionar o célebre Livro das Causas (De causis, ou Liber Aristotelis de expositione boniatis purae), que se atribuía à Aristóteles, mas que reproduz literalmente partes dos Elementos de Teologia de Proclo. O verdadeiro autor deste tratado, espalhado após o início do século XII, altamente usado por S. Alberto o Grande, e teólogos renanos, não será identificado senão por S. Tomás. Ora, ele declara, em sua 4a proposição: « A primeira das coisas criadas foi o ser », proposição frequentemente citada por S. Tomás e a qual fez mesmo uma « autoridade » (I, q. 5, a. 2, sed contra). A qual é necessário acrescentar o Livro dos XXIV filósofos(sec.XII), escrito relevante da tradição arabo-hermética, e que formula uma série de admiráveis proposições sobre Deus ( tal qual a célebre imagem da esfera inteligível a qual o centro está em todo o lado e a circunferência em nenhuma parte). Ora, a 11a proposição deste livro enuncia:« Deus está para além do ser, se bastando à Ele-mesmo em sua abundância ». Não é de se admirar se se observa, até em S.Tomás, o afloramento de um tema meta-ontológico. Sem dúvida não é necessário se deixar abusar pela identidade das formulações que podem bem recobrir em muito as divergências. Entretanto, o Comentário sobre as Sentenças (I, dist. XIII, art. 1, rep. 4) exprime bem claramente ; após ter relembrado que a « via de exclusão » (ou via negativa) nega de Deus as realidades corporais como as realidades intelectuais, Tomás continua: « Então, nada mais resta em nosso intelecto que isto; Ele é, e nada mais. Mas para acabar, este mesmo ser, na forma onde se acha nas criaturas, nós os negamos de Ele, e então permanece numa treva de ignorância no seio da qual nos unimos à Deus da maneira mais alta/elevada ».
O comentário sobre as Sentenças é uma obra de juventude. Mas, a apófase de S. Tomás se acentua bastante na maturidade. A Suma Teológica (I, p. 13, a. 11) nos diz/mostra bem que Aquele que é por excelência o « nome próprio de Deus ». Mas, é somente em razão de sua significação geral, significação que ela mesma é « emprestada » ao que tem de mais perfeito na criatura — sua existência — e transportada analogicamente em Deus. É porque « Deus », não se aplica a não ser em um só, e mais o « Tetagrammaton » (que designa a Realidade divina em seu mistério inefável) são, para S. Tomás, ainda mais apropriada que « Aquele que é ». Um pouco mais tarde, no De Potentia (Q. 7e, a. 2, rep. 1), ele precisa que a proposição « Deus é » não tem o sentido de uma qualificação: não se trata de atribuir o ser à Deus e de o arrumar sob a categoria de ser, mas, de compreender que todo ser, porque é, requer que Deus seja. Assim o nome « Aquele que é » é um nome de criatura (ibid., rep. 11e). Mas o efeito levando semelhança de sua causa, « os nomes de criaturas — aquele de ser em particular — são atribuídos à Deus para tanto quanto as criaturas nos apresentem alguma semelhança com Deus ». Enfim, em seu comentário do De Causis (lect. VIII-1269), reconhece que a « causa primeira está para além do ser (supra ens) em tanto quanto Ela é o infinitamente o ser mesmo (ipsum esse infinitum).
NOTAS: